sábado, 15 de setembro de 2012

DESENCANTO
 
Depois de uns dez anos fora, voltei ao meu nicho juvenil, meu domínio, minha posse de menino: meu recanto campesino perto da casa onde me consolidei como ser pensante.
Não menos surpreso do que frustrado, foi me difícil reconhecer e até chegar às vertentes da minha infância.
Tão perdido como me sentira ao chegar, pela primeira vez, em solo estranho, me sentia agora.
O riachinho, cheio de surpresas a cada metro, tinha se tornado nada mais que uma mera valeta lamacenta, ribanceada de caraguatás e outros espinhos! Onde estão as pedrinhas multicoloridas que enchiam as minhas tardes de inverno e verão? Até as achei, mas, como estavam cheias de limo, e tinham perdido a sua cor!
E os peixinhos coloridos, onde estão? Se os vi, não eram mais os mesmos. Haviam se tornado como uns serezinhos irriquietos, amarronzados, chumbo-zinebriados, como os vermes numa lupa de laboratório...
- Certamente minha pitangueira preferida, estará no seu lugar e muito mais forte, sustentará meu peso e denovo vou afrouxar meu corpo em seu corpo... - raciocinei
Lástima. A pitangueira ainda estava lá, mas não tinha crescido, parecia ter se entanguido com o tempo. Não pude nem mesmo desfrutar de sua sombra, afinal o riacho parecia ter avançado em direção à suas raízes, e parecia não valer a pena, afinal... Quase não reconheci a forquilha que me sustentava nas doces tardes nos dezembros de minha infância...
E a fonte no meio dos pés de móio? Água límpida... sempre gelada... ahá! Pelo menos isso! Onde estará? A caro custo, achei o lugarzinho. Ainda estava lá, quase completamente encoberto de tantos arbustos novos que cresceram por ali. E a água será tão boa como era? ... cruzes! O que era aquilo? Como podia ter bebido aquela água? Saindo do meio daquelas pedras, com tantas folhas pairando no fundo? Coisa de criança. A fonte que supunha ter poderes medicinais e minerais era apenas um borbulho na barranca do meu viver pequenino de outrora.
Onde estão os gigantes da minha infância? O meu rio, que me cobria todinho? A minha floresta que não consegui conquistar? Os seres debaixo daquelas pedras ao longo do rio? Todas aquelas aves que me escondiam, de propósito, os seus ninhos? Aquelas árvores enormes que não consegui trepar? Quem roubou aquelas pedras cheias de minérios, que me podiam ter feito rico?
Que pena! Ficou tudo tão pequeno, tão minúsculo, tão sem graça.
Tão sem encanto. Desencanto.

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