PREMATURA SEDUÇÃO
Quero denunciar!
Foi sedução. À primeira vista.
Mesmo antes de saber decifrá-las.
Meus pais - uns incautos! Desatentos. Não os perdôo!
Deviam ter me protegido. Afinal, ainda usava calças, calças muito curtas, e tinha orelhas sujas!
Fui seduzido. Muito cedo. Pelas letras.
Pelas quadrilhas delas. Pelos espaços entre elas. Pela cadência delas. Pela simpatia de suas formas.
- 'O que será que significam?' - E os 'ganchinhos' no final, o que serão? E as barrinhas \ /? E os tracinhos no início? E essa minhoquinhas aqui encima? Por que não falam comigo? Por que eu, logo eu, que as amo tanto?
Não sei o que são.
Posso somente 'fingir' que as entendo. Como vovó, que aprendeu isso há pouco. Passando o dedo, com unha suja e tudo, sobre elas.
Os que observam isso, observam rindo. Parece que não está acontecendo nada.
Mas eu estava sendo seduzido.
Prematuramente. Pelas letras!
Flávio Sória
sábado, 15 de setembro de 2012
DESENCANTO
Depois de uns dez anos fora, voltei ao meu nicho juvenil, meu domínio, minha posse de menino: meu recanto campesino perto da casa onde me consolidei como ser pensante.
Não menos surpreso do que frustrado, foi me difícil reconhecer e até chegar às vertentes da minha infância.
Tão perdido como me sentira ao chegar, pela primeira vez, em solo estranho, me sentia agora.
O riachinho, cheio de surpresas a cada metro, tinha se tornado nada mais que uma mera valeta lamacenta, ribanceada de caraguatás e outros espinhos! Onde estão as pedrinhas multicoloridas que enchiam as minhas tardes de inverno e verão? Até as achei, mas, como estavam cheias de limo, e tinham perdido a sua cor!
E os peixinhos coloridos, onde estão? Se os vi, não eram mais os mesmos. Haviam se tornado como uns serezinhos irriquietos, amarronzados, chumbo-zinebriados, como os vermes numa lupa de laboratório...
- Certamente minha pitangueira preferida, estará no seu lugar e muito mais forte, sustentará meu peso e denovo vou afrouxar meu corpo em seu corpo... - raciocinei
Lástima. A pitangueira ainda estava lá, mas não tinha crescido, parecia ter se entanguido com o tempo. Não pude nem mesmo desfrutar de sua sombra, afinal o riacho parecia ter avançado em direção à suas raízes, e parecia não valer a pena, afinal... Quase não reconheci a forquilha que me sustentava nas doces tardes nos dezembros de minha infância...
E a fonte no meio dos pés de móio? Água límpida... sempre gelada... ahá! Pelo menos isso! Onde estará? A caro custo, achei o lugarzinho. Ainda estava lá, quase completamente encoberto de tantos arbustos novos que cresceram por ali. E a água será tão boa como era? ... cruzes! O que era aquilo? Como podia ter bebido aquela água? Saindo do meio daquelas pedras, com tantas folhas pairando no fundo? Coisa de criança. A fonte que supunha ter poderes medicinais e minerais era apenas um borbulho na barranca do meu viver pequenino de outrora.
Onde estão os gigantes da minha infância? O meu rio, que me cobria todinho? A minha floresta que não consegui conquistar? Os seres debaixo daquelas pedras ao longo do rio? Todas aquelas aves que me escondiam, de propósito, os seus ninhos? Aquelas árvores enormes que não consegui trepar? Quem roubou aquelas pedras cheias de minérios, que me podiam ter feito rico?
Que pena! Ficou tudo tão pequeno, tão minúsculo, tão sem graça.
Tão sem encanto. Desencanto.
Depois de uns dez anos fora, voltei ao meu nicho juvenil, meu domínio, minha posse de menino: meu recanto campesino perto da casa onde me consolidei como ser pensante.
Não menos surpreso do que frustrado, foi me difícil reconhecer e até chegar às vertentes da minha infância.
Tão perdido como me sentira ao chegar, pela primeira vez, em solo estranho, me sentia agora.
O riachinho, cheio de surpresas a cada metro, tinha se tornado nada mais que uma mera valeta lamacenta, ribanceada de caraguatás e outros espinhos! Onde estão as pedrinhas multicoloridas que enchiam as minhas tardes de inverno e verão? Até as achei, mas, como estavam cheias de limo, e tinham perdido a sua cor!
E os peixinhos coloridos, onde estão? Se os vi, não eram mais os mesmos. Haviam se tornado como uns serezinhos irriquietos, amarronzados, chumbo-zinebriados, como os vermes numa lupa de laboratório...
- Certamente minha pitangueira preferida, estará no seu lugar e muito mais forte, sustentará meu peso e denovo vou afrouxar meu corpo em seu corpo... - raciocinei
Lástima. A pitangueira ainda estava lá, mas não tinha crescido, parecia ter se entanguido com o tempo. Não pude nem mesmo desfrutar de sua sombra, afinal o riacho parecia ter avançado em direção à suas raízes, e parecia não valer a pena, afinal... Quase não reconheci a forquilha que me sustentava nas doces tardes nos dezembros de minha infância...
E a fonte no meio dos pés de móio? Água límpida... sempre gelada... ahá! Pelo menos isso! Onde estará? A caro custo, achei o lugarzinho. Ainda estava lá, quase completamente encoberto de tantos arbustos novos que cresceram por ali. E a água será tão boa como era? ... cruzes! O que era aquilo? Como podia ter bebido aquela água? Saindo do meio daquelas pedras, com tantas folhas pairando no fundo? Coisa de criança. A fonte que supunha ter poderes medicinais e minerais era apenas um borbulho na barranca do meu viver pequenino de outrora.
Onde estão os gigantes da minha infância? O meu rio, que me cobria todinho? A minha floresta que não consegui conquistar? Os seres debaixo daquelas pedras ao longo do rio? Todas aquelas aves que me escondiam, de propósito, os seus ninhos? Aquelas árvores enormes que não consegui trepar? Quem roubou aquelas pedras cheias de minérios, que me podiam ter feito rico?
Que pena! Ficou tudo tão pequeno, tão minúsculo, tão sem graça.
Tão sem encanto. Desencanto.
Essa é a flor sagrada tiare apetahi que cresce apenas nas encostas do vulcão Temehani, ilha Raiatea, Polinésia. ... ela só cresce e vive ali, a 700 metros de altura, e não pode ser transplantada em nenhum outro lugar. Até mesmo a tentativa de transportar por helicóptero a flor para uma altitude semelhante no Tahiti fracassou. (Livro Cidades Perdidas... de David Hatcher Childress - apresentador do History Channel - p. 349) Eis uma florzinha com personalidade!
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